quinta-feira, 25 de maio de 2017

AMORE

A música passava muitas vezes nos roufenhos altifalantes da esplanada da piscina Municipal de Manica, em Moçambique. Em 1970, quando saiu, tinha eu oito anos. L’appuntamento! Cantava Ornela Vanoni. Naquele dia de Inverno africano aconteceu una cosa strana. Em frente a mim, sentou-se numa mesa contígua, na esplanada do restaurante, uma menina, talvez da minha idade, cabelos cor-de-Sol, olhos claros azul-celeste. Trocamos olhares. Os nossos pequenos coraçõezinhos terão estremecido. Digo eu! O meu sacudiu! Lembro-me muito bem.
Nos três dias seguintes tudo mudou. Sentávamo-nos à mesa, na mesma mesa e nas mesmas cadeiras. E ficávamos ali, a olhar um para o outro, em silêncio. Por quantos minutos, horas talvez, não sei. Perdi a vontade de dar mergulhos de bomba na piscina e o apetite ao frango na púcara, a especialidade da casa. Perdi a noção do tempo. Perdi-me!
Nunca lhe perguntei o nome nem ela o meu. Não era preciso. Ao quarto dia fiquei sozinho, debruçado naquela mesa, com uma dor imensa no peito. Não era uma dor de doer. Era uma dor muito strana! Estranha! Nunca mais a vi! Ficou o nome: Ornela! Foi o nome que lhe dei.

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