sábado, 11 de abril de 2020

A minha Páscoa

Páscoa! Religiosidades à parte, eu até gosto da Páscoa! As limpezas das casas, a fundo, carradas de lexívia, engalanar de pétalas a escadaria da entrada que nunca é usada, a visita do padre, dos ajudantes que aproveitavam para se alambuzar, os beijinhos na cruz, sumariamente limpa com paninho de alva branquidão depois de cada ósculo, o envelopezinho com o tusto possível, as horríveis amêndoas brancas, rosas e azuis nos pratinhos espalhados na mesa com toalha decorada a ponto cruz, um bolo em fatias, seco, sem cremes frívolos, a tradicional garrafa de vinho do porto "Três Velhotes", e depois, finda a visita da comitiva, recolhia-se a outra sala e lá dentro, um anho assado com batatinhas à volta e arroz de forno, saladinha de tomate e pepino, cebolas do taco encharcada em vinagre tinto bio, natural, tudo regado a verde ou maduro, coca-cola ou laranjada Sameiro e depois, depois sempre ia uma sopa seca, aletria carregada de canela ou um pudim molotov para atestar o estômago que nos restava e aí sim, no fim, aquela aguardente asfixiante que nos ia remoer tudo. O cafézinho, pagas tu ou pago eu, era normalmente tomado num Café a dois passinhos dali. Havia que sair para ver como andava o povo vestido neste sagrado dia. - Olha aquela! Com folhinhos no vestido! Já não se usa! Parola! - Pouco variava mas, eram assim as minhas Páscoas! E eu gostava... menos os foguetes que me punham os nervos em farrapos!

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