O PRIMO ADÃO
Espero sempre por dias quentes! Detesto frio, chuva e outras coisas que me fazem tiritar! Sim, foi o meu primo Adão quem me meteu o vício das motas. Aquelas férias na cidade da Beira e a lembrança do calor tórrido, eram clássicas. Gritava como um desalmado para que não me deixassem ficar naquela terra tão distante da minha Manica, a vilória na fronteira com Umtali, na Rodésia. Os meus pais levavam-me lá e... piravam-se! E lá ficava eu em casa da minha querida e doce tia Grabelina, que me enchia de mimos e que me tratava por Marito! Para ela, fui sempre o Marito e de cada vez que me via, aquela pequenina mulher apertava-me quase a sofocar! Na casa, havia o meu tio David - marido, homem de poucas falas, irmão da minha avó materna! - e quatro filhos. O Adão e o Zeca eram os únicos que me prestavam atenção. O Adão era o dono da mota e o Zeca tinha um belo MG descapotável. Quando me punha a berrar com saudades de casa, eles acalmavam-me com umas voltinhas de mota ou descapotável! Levavam-me para a marginal da cidade da Beira e compravam-me invariavelmente, uma caixinha de pastilhas elásticas da Adams, mais conhecidas em Moçambique por "chuingas"! Eu, a "mascote" da casa era, naqueles dias, o centro das atenções! Não sei quem é que se divertia a dar-me vinho, mas a tia Grabelina não achava piada nenhuma à brincadeira! Naquela casa, a massa cotovelo com bacalhau era um "must", obrigatório! Nunca mais me esqueci e ainda hoje gosto dessa iguaria, estranha, para prato português! Quem terá tido a ideia de misturar massa com bacalhau? Não sei; era, é bom!
Exceptuando a minhas idas à praia, andava por ali, no quintal da casa e, de vez em quando, "amandava-me" à goiabas, das duas espécies que havia nas traseiras da casa. Aliás, foi a primeira vez que vi goiabas cor-de-rosa! Havia também uma árvore de anona! Que fruto tão estranho! Também não conhecia! Não fiquei fã!
O Adão, era quem mais passeava comigo no seu motão, talvez uma Triumph Bonneville. Não me recordo da marca mas, também, com aquela idade de quatro ou cinco anos, como é que me poderia lembrar!? Sei que o vício das motas ficou cá!
Em finais dos anos setenta, com a chegada de grande número de retornados à Metrópole, cada um fez-se à vida à procura de trabalho! O Adão comprou um tractor e começou a fazer fretes, na agricultura ou a "carrar" coisas. Morreu esmagado debaixo da sua ferramenta de trabalho! Foi um dos meus primeiros impactos verdadeiramente negativos com a morte!
O FaceBook hoje mostrou-me a foto daquele miúdo, que andava sempre a rir, sentado no motão! Foi o Adão quem, desta vez e percorrendo os trezentos quilómetros entre Beira e Manica, me foi visitar e, tenho a certeza, foi quem me "sacou" a foto!
Por estas alturas de Natal, é normal o convívio entre familiares mas, penso sempre em quem já partiu e de quem tenho verdadeiras saudades!
Passaram-se muitos anos da sua morte mas, onde quer que o Adão esteja, estará certamente a passear de mota!

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