sábado, 12 de outubro de 2019

Duas folhas de couve




DUAS FOLHAS DE COUVE

    Olhe! Chegue-se aqui! Vou contar-lhe uma história! A minha história, da minha vida. – Foi assim que a velhinha ao canto da sala, sentada à mesa com dominós baralhados, chamou o animador cultural. Naquela semana, João encarregou-se de fazer a recolha de histórias de infância dos idosos, presentes nos espaços de convívio espalhados pelo concelho. Visitava-os com alguma frequência. Entretinha-os com trabalhos manuais, desenhos, pinturas, leituras. Sentou-se à mesa, sorriu e a senhora Mariazinha continuou… - Sabe! Eu sofri muito. Estes tempos novos não são nada. No meu tempo é que era. Só fome! A gente só comia milho! Pão de milho! Isto é um modo de dizer não é! Eu, de manhã punha-me a pé, cedinho, pela fresquinha; isto no mês de Agosto!, e lá íamos nós com um safate à cabeça cheio de verduras para vender onde calhava. Vinte e tal molhinhos de hortaliça para ganhar um tostãozinho. O meu homem ficava em casa a olhar pela criação. Um dia lá fui eu, com a cesta à cabeça e ao virar da esquina, pró lado de cima, mesmo em frente a casa e eu… nem tinha cuecas nem tinha dinheiro para cuecas, nem nada… caiu-me ali um aborto! Eu nem sabia o que era! Pousei o cesto em cima do muro de pedra. O meu homem tinha-me dito, vai pelas portas vende-me isso tudo e na volta traz-me da vila, um saco de amónio. Eram cinquenta quilos de adubo! Naquele tempo chamava-se amónio e trazia-o à cabeça! À cabeça ‘tá a ver? - João continuava atento, ouvia. A idosa prosseguiu - Eu nem sabia o que fazer! Se voltasse para trás sem o amónio, ele batia-me! Então, aquilo caiu-me no chão e eu cheia de sangue a escorrer-me pelas pernas abaixo, nem sabia o que era. Eu aflitinha! Olhe, saltei o muro de pedra para o lado de lá, arranquei duas folhas de couve de uma hortinha. Voltei a saltar o muro outra vez e apanhei aquilo. Embrulhei nas duas folhinhas e pus aquilo num buraco do muro. E lá fui eu! Ele batia-me se tornasse para trás! Lá fui eu, sabe? Eu chorava, chorava. As pessoas ainda perguntavam, você que tem? Eu só dizia, não tenho nada! Compre-me por favor as verduras! Às vezes lá explicava alguma coisa, que o meu homem me batia se não levasse o saco de amónio. Tinha que vender a hortaliça toda. Ele batia-me! Eu só pedia, vocês ajudem-me por favor! O raio bate-me! As pessoas, todas, lá me ajudaram. E trouxe o amónio com o dinheirito da venda! Cinquenta quilos de adubo à cabeça. À cabeça, ‘tá a ver? Tinha uma rodilha! Da vila até casa! São três quilómetros pra lá e três quilómetros pra cá! Passei pelo muro onde tinha escondido aquilo e trouxe para casa. Mostrei à mãe dele e ela vai assim: - “Isso é um aborto! Um desmancho! Isso não interessa nada! Eu também tive um rapelho que já tinha seis meses e enterrei-o numa borda do quintal! Isso não é nada!” – Era um desmancho! Era assim que se dizia naquele tempo. Pronto! Então o meu homem, que estava ali ao lado, virou-se para a mãe e disse: - “Ó mãe! Mate-me uma franguinha para ela fazer um caldinho!” - Sabe qual foi a resposta da velha: - “Ah! Isso não interessa nada!” - Olhe! Matou-me ele a franguinha e fez-me ele o caldinho, a canja! Era o menos. Vendi-lhe a nabiça toda e trouxe-lhe o adubo e era o que ele queria. Eu já sabia com quem lidava. Depois daquele dia lá fui andando, fui andando e sentia-me mal sabe!? Andei assim até ao resto do mês! Quando fui a Braga, já levava um mal tal, uma infecção, que o médico virou-se para o meu homem e disse-lhe: - “Você, um destes dias ia deitar-se ao lado da sua esposa, acordava no dia seguinte e já lhe ia fazer o enterro!” - Eu tinha de andar, trabalhar! Se não andasse tão depressa… bom…! Foi o primeiro desmancho que fiz! Tive cinco! Todos seguidos! De dois em dois meses lá tinha um! E depois os médicos ralhavam-me! Eu dizia - Ó senhor doutor… Eu não fiz nada! Os senhores é que sabem destas coisas! - Andaram, andaram até que descobriram. Tinha um mal sabe. Uma ferida no útero. Andei meio ano a ser tratada, lá em Braga. Queimaram-me a ferida e fiquei curada. – “Agora você tem de ser vista amiúde!” – Disse-me o doutor. Olhe… inté hoje! Nunca mais lá tornei. Depois, olhe… vieram os filhos de braçado. Todos seguidos! Oito! Oito filhos! Todos vivinhos, graças a Deus!


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