quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Histórias de um emigrante 5

   Na escadaria da loja 7-Eleven, deitava-se muitas vezes um índio. Sempre bêbado, este índio de larga estatura, passava por mim e cumprimentava-me sempre com um hello my friend! Já me conhecia. Mas, antes destes episódios de cumprimentos amistosos, a coisa começou assim: passou-se num Verão e um dia, cheguei primeiro e sentei-me, sem querer ou sequer ter pensado nisso, no lugar onde ele dormia as suas sonecas! O futuro amigo índio aproximou-se e perguntou-me o que estava eu ali a fazer. Disse-lhe que era turista e descançava. Não sei o que me deu para ter respondido assim mas... Cambaleando, chegou-se a mim, deu-me um abraço enquanto dizia ok turist ok turist, ok turist!! O cheiro a falta de banho e álcool era tremendo! Mas ganhei um amigo! Depois daquele dia, pagava-lhe de vez em quando um "bitter" - porque me pedia! -  uma bebida amarga de origem que ainda hoje desconheço. Pagava-lhe, dizia eu, porque sabia que ele, quando tinha uns trocos, comprava e bebia Aqua Velva, o after shave! Vi-o durante dois ou três verões. Não me recordo! Depois desapareceu! Nunca mais vi o amigo índio!

  No Canadá, a acusação de assédio de qualquer espécie, são caso sério! Quando me sentei à mesa naquele MacDonalds na St. Clair Ave West, estavam na mesa ao lado uma senhora bastante jovem e um menino. Ela bebia um "canadian coffe" e o miúdo, de braços cruzados sobre a mesa, olhava para mim de vez em quando. Eu lamento profundamente a vivência daquele dia. Gostaria de o apagar da minha memória. Não tive o descernimento suficiente de ver que aquele miúdo queria comer! Bem...ver, até vi! Vi e aquele medo de parecer mal (assediar?), supostamente, aos olhos da mãe, falou mais alto. Saí porta fora e falhei novamente! Devia ter comprado dois hamburgers e pedido à funcionária que os entregasse naquela mesa, assim que estivesse fora do estabelecimento. Falhei, fui cobarde! O receio! Medo da acusação de assédio de qualquer coisa. Acusações de assédio, de tudo e mais alguma coisa, são uma constante neste país. Conheci pessoalmente alguns casos. Ponto muito negativo! Para um latino como eu, alguns destes casos de "assédio", são totalmente incompreensíveis! (Um dia, abri a porta a uma senhora e ela, aos berros disse-me "porque não vais tu primeiro"!!!! Aprendi! Nunca mais!!!!)
   Gosto muito de crianças. Acho uma enorme piada às suas descobertas, risos, perguntas embaraçosas, etc etc. Dizer que se gosta de crianças, nos dias de hoje, é levar imediatamente com um carimbo na testa a dizer...pedófilo! É só a humanidade a "evoluir"!
   Lamento aquele dia de merda na minha vida e de recordar o olhar daquele menino! Naquele dia, eu não fui eu! Não fui eu!
   
   Mas nem sempre fui assim "mau"! Já em Portugal, fiz um carrinho de rolamentos todo chique, com aileron e tudo, para o meu filho e passados tempos (horas?) apareceram-me à porta, ele e mais uns quantos putos, talvez uns seis, todos com olhares muito meiguinhos! Foi o meu filhote que falou! Perguntou-me se podia fazer também carrinhos para os colegas...todos!! Fiz! Fiz para todos e todos iguaizinhos, para não haver batota nas corridas!
   Já adultos, alguns desses miúdos passavam por mim e diziam, "sr. Mário, ainda lá tenho o carrinho que o senhor me fez!"




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