terça-feira, 15 de outubro de 2019

Histórias de um emigrante 2

   Uma das particularidades no Canadá e mais precisamente em Toronto foi ter contactado com uma polícia, na generalidade, afável, prestável, simpática. Claro que houve casos verdadeiramente dramáticos. Conto dois casos.
 
   Eu, vadio, numa das minhas saídas noturnas, dirigi-me a uma loja de conveniência, Seven Eleven, abertos 24 horas e para apaziguar um vício "entranhado" no corpo comprei, como de costume, chocolate preto e água Perrier! Comprei, saí da loja e sentei-me numa escadaria de 5 ou 6 degraus ao lado do edifício e dei conta de uma pequena escaramuça entre duas "estacas", polícias e um pequenito chinês. Este, aos pulos e em jeito de arte marcial, malhava forte e feito nos dois grandes polícias. Sangravam abundantemente da cara. Quando os polícias o conseguiram segurar, o chinês levou tanta porradinha que, quando o enfiaram dentro do carro estava inanimado e parecia um farrapo. Arrancaram a alta velocidade e eu continuei a comer o chocolate!

   Edmond Yu era um chinês grande, possante e, mais possante parecia porque vestia sempre uma quantidade enorme de casacos! Verdade! Os casacos eram tantos que eu perguntava-me se ele não ferveria dentro deles! Eu vivia perto da China Town e reparava muitas vezes naquela figura estranha. Encontrei-me com Yu por duas ocasiões numa livraria da Dufferin Plaza, na secção de "comics"! Apesar de pouco falar, ainda trocamos algumas palavras. Edmund Yu foi abatido pela polícia quando dentro de um autocarro brandia um pequeno martelo ameaçando bater em alguém. Soube de todo o percurso da sua curta vida através dos jornais. Campeão de box em Hong Kong, mudou-se para Toronto para cursar medicina. Diagnosticado com esquizofrenia, chegou a estar internado num hospital psiquiátrico. Das muitas vezes que o vi, pareceu-me sempre, muito calmo.
   Abatido com seis tiros, Edmond Yu ficou "famoso" depois da morte violenta. Existe um documentário sobre a sua vida.

  Por alturas do Natal, fui mandado parar por um polícia enquando conduzia o meu Honda Civic. Mais um polícia, mais uma "estaca" com aproximadamente dois metros! Cumprimentou-me e pediu-me os documentos, meus e do carro.
- Mário Teixeira - Disse ele!
- Sim, respondi eu, estranhando o sotaque não inglês!
- Bebeu? - Diz-me em português quase perfeito!
- Não!
- Então continue assim. Vou dar-lhe umas prendas!
   As prendas eram um raspador de gelo para vidros dos carros, um pequeno "squeegee" e coupons para desconto na gasolina. No fim, não resisti a tamanha curiosidade e perguntei-lhe como sabia falar tão bem o português. Respondeu-me: - Sou casado com uma professora portuguesa dos Açores!
   Sorrimos um para o outro e despediu-se com um "safe driving!"...em inglês!


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