Uma das particularidades com que me deparei na emigração lusa e principalmente nas gerações mais velhas, na sua grande maioria, eram adeptos quase religiosos, de Salazar! Sim, o mesmo Salazar ditador que nunca lhes deu condições e os forçou a emigrar. Lisboa, Porto e outros centros urbanos de alguma importância, como a Coimbra dos doutores, é que tinham direito a casas-de-banho! Os outros, a populaça, cagava no meio das couves e uma folhas destas serviam bem como papel higiénico. Comida... comida eram papas, broa, sardinha para três. O 4º filho ficava com a cabeça! Fazia-se sopa com rebentos de roseira brava mas, graças a deus nosso senhor dos aflitos, Portugal NÃO devia, sequer, um tostãozinho!, e os cofres estavam cheios de ouro! O ouro, bem... o ouro continua numa reserva de 15º no pódio, no planeta todinho! Ouro não falta!
Tive discussões acesas com os saudosistas da miséria total, das aldeias sem electricidade, sem estradas, cheias de gente descalça. Tive uma discussão com um galego, vejam lá, ferrenho adepto do caudilho Franco, o verme que lhe proíbiu de falar a língua materna!
No Canada, quando lá cheguei, palavra socialismo era então, proíbitiva. Aquela gente nunca entendeu que, só o pertencer a um sindicato era já de si, ser-se socialista. E que bem nos faziam os sindicatos. Tínhamos(temos!) grandes instalações para banquetes, médicos de especialidades várias, subsídios de férias substânciais e, acima de tudo, greves a valer! Não eram greves de bandeirinhas...Sim, dessas notícias não chegam cá! Suspeito que não ficaria bem às televisões lusas, saber-se que num país "capitalista" havia(há!) lutas de virar carros de trabalho a quem furava greves, que aconteciam, normalmente, com tuguinhas! Eu tinha vergonha, muita vergonha!
O meu primeiro emprego, no Canadá, foi colocar preços em frutas. Passei para a construção! Franzino como sempre fui, puseram-me uma pá e uma picareta nas mãos. Sangrei das mãos, aproveitava para chorar quando chovia, disfarçava as lágrimas, cantei refrões de várias músicas. A firma tinha de nome ACU! Contavam-se piadas sobre este nome. O patrão, que me achava-me espevitado, era o mais novo e chamava-me Joey! Era o nome que constava no cartão falso. Estava ilegal. Era o Joey Faria! Trabalhava com um grupo de animais lusos. De volta a casa, dentro da carrinha sem vidros, abriam os alforges e voltavam a mastigar tudo o que lá encontravam. Comiam como uns alarves e...peidavam-se! Comiam e peidavam. Quando me tornei legal e passei a ser o Mário saí, abandonei a firma e com muita pena do patrão, canadiano, um amigo! Pagava-me muito bem apesar do pouco que fazia.
Um dia, ao ouvir os passos no andar de cima(estávamos na cave!) os lusos, começaram a trabalhar a uma velocidade estonteante e eu parei! - És burro ou quê? - ainda gritou um deles. - Põe-te a mexer c....lho! - Eu disse: - Vocês é que são uns grandes asnos! Acham vocês que o patrão vai acreditar que vocês, grandes burros, trabalham a essa velocidade as 8 horas diárias? - O patrão desceu a escada e encontrou-me apoiado numa pá. Sorriu e piscou-me o olho!
Ganhei corpo! Tudo "marchou" na minha alimentação, desde hamburgers, pizzas, hot-dogs, pasta, "molta pasta al polpete di carne"! Cheguei quase aos 90 kgs!
Depois abri a pestana e lá fui parar à carpintaria. Foi amor à 2ª vista! (O meu avô fazia-me carroços para ir às pinhas!). Na carpintaria fiz de quase tudo. Costumo dizer que só me faltam fazer barcos!
Nunca fui um emigrante vulgar. Não emigrei porque me faltava dinheiro em casa! Tinha mota, passeava, vivia! Eu quis sair do Portugal dos pequeninos! Estudei, vi, viajei por toda a América do Norte. EUA exercia sobre sobre mim um fascínio sem controlo. Foi-me recusado o visto por duas vezes! Fui para ao Canadá, país com gente simpática, que gosta de ajudar. Tornei-me cidadão canadiano e aí... foderam-se os rednecks! Entrava e saía quando me apetecia e Nova York estava ali a 900km! Conheci uma América fantástica sem trumpes e outros bichos peçonhentos.
O meu último trabalho, em 2012 foi fazer acabamentos em casa de luxo cujo custo aproximado, rondava os 10 milhões de dólares! Piscinas interiores aquecidas e outras coisinhas! Ali trabalhava-se quase na perfeição!
Dos adeptos de Salazar, ainda vou tendo amigos mas com muita pena minha! A política não interfere. Nem o futebol, já agora! Não querem definitivamente, ver o mal que esse homem fez a este país, Portugal! O Canadá, ficará sempre no meu coração! O país e a senhora da imigração, muito simpática, que me perguntou porque vinha para o Canadá. Disse-lhe que vinha para ser cineasta de cinema de animação! O National Film Board of Canada estava encaixado dentro dos miolos! A senhora abriu um sorriso de orelha a orelha e disse-me em francês(língua que dominava melhor!): Mario(Mério!)...O meu ex-marido é cineasta! Faz documentários e nem por isso ganha bem! - Devo ter mostrado uma puppy face! Passou-me os papéis, e legalizado fui festejar!... O Canada e o dinheiro a rodos esperavam por mim!
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