Carta aberta de um Português a Pedro Passos Coelho
Ontem ouvi a sua intervenção sobre a alegada “percepção de insegurança” vinda do excesso de imigrantes. E lá estava o espantalho da “política de Bar Aberto”, como se Portugal fosse um tasco sem porteiro. Só que não, caro doutor: a responsabilidade maior é sua. Foi o senhor que, em plena crise, incentivou os portugueses a emigrar. Recorda-se? O famoso “Emigrem”? Pois bem, muitos foram.
E depois, no meio desse êxodo forçado, tivemos episódios que envergonham qualquer discurso xenófobo. O Boris Johnson foi salvo por um enfermeiro português em Londres. E cá dentro, portugueses como eu são tratados todos os dias por profissionais cabo-verdianos, angolanos, nepaleses e tantos outros que seguram o SNS à custa do seu suor. Ironia das ironias: se não fossem eles, Portugal estaria em coma induzido.
No fundo, caro Passos, quando aponta o dedo aos imigrantes, está a negar a própria realidade que ajudou a criar. Um país que empurrou a sua juventude para fora precisa de braços vindos de fora para não colapsar. É matemática básica, não ideologia.
E mais: Portugal vive 40% do PIB à custa do turismo. Então como é que se pode falar em “estrangeiros a mais”? No centro de Lisboa ou do Porto, o que me faz sentir estrangeiro não é o imigrante que cá trabalha, mas a avalanche de turistas franceses, alemães e ingleses que compram apartamentos como se fossem pacotes de manteiga. Estranhamente, contra esses não se ouve uma palavra.
A história é simples: se há insegurança, não vem de quem cá trabalha, mas de quem cá governa mal.
Com os melhores cumprimentos,
Um português que não esquece o seu “emigrem”.
Tiago Al in Facebook aos 18.10.2025

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